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Carta de Hiroshima

Rm
   - 12 fev 2005

Carta de Hiroxima de Tamiki Hara nascido em 1905 em Hiroxima.

Hiroxima Agosto de 1945.
Naquela manhã de 6 de agosto de 1945 ,levantei-me pelas oito horas. Na noite anterior haviam soado dois alarmas antiaéreo, mas não caíram bombas... (1)
De repente levei uma pancada na cabeça e tudo escureceu a minha volta.Gritei e levantei os braços. Na escuridão só ouvia um barulho parecido com um uivo de uma grande tempestade. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Até o meu grito parecia ter vindo de outra pessoa.
Quando em meu redor as coisas ficaram novamente visíveis, embora não muito claras a principio, tive a sensação de estar no meio de uma grande catástrofe. Entre as densas nuvens de pó apareceu um pedaço de céu azul, logo seguido de outros.
Pequenas chamas começaram a sai do edifício ao lado, um depósito de produtos farmacêuticos.Já era tempo de sair de onde eu estava junto com K., consegui atravessar os escombros.
Nuvens de fumaça subiam em turbilhão das ruínas das casas.Chegamos a um lugar onde o calor das chamas era insuportável, mas encontramos outra rua que levava a ponte de Sakai: O número de refugiados que afluía para este lugar aumentava a todo instante. Fui andando na direção do palácio Izumi. A vegetação pisoteada pelos que fugiam tinha formado uma espécie de passarela.Quase todas as árvores tinham sido decapitadas.
A principio cada um pensava que só a sua casa tinha sido atingida, mas quando saía via que tudo tinha sido destruído. E o mais estranho era que, apesar de todos os edifícios estarem arrasados, não se via nenhuma cratera que as bombas geralmente formam (2).|No outro lado do rio, incêndios que pareciam estar apagando recrudesciam com maior violência.
De repente no céu,acima do rio, via uma massa de ar de incrível transparência deslocando-se contra a corrente (3). Mal tive tempo de gritar ´um furacão´ , e um vento terrível nos atingiu. Arvores e arbustos tremiam violentamente; alguns eram arrancados pela raiz a atirados ao ar , de onde caiam como flechas no medonho caos que se formara. Tinha-se a impressão de que o reflexo verde de um inferno horrível estava sendo projetado sobre a Terra.
Após a passagem do furacão uma espécie de crepúsculo escureceu o céu. Foi ai que encontrei meu irmão mais velho. Seu rosto parecia coberto por uma fina camada de tinta cinzenta. As costas de sua camisa estavam em tiras, expondo um enorme ferimento parecido com queimadura do Sol.
Enquanto procurávamos um barco ao longo do estreito cais, vi muitas pessoas completamente desfiguradas.Estavam por toda parte na beira do rio ,suas sombras refletidas na água. Seus rostos estavam tão entumecidos que era difícil distinguir homem de mulher. Os olhos eram meras fendas eo lábios estavam monstruosamente feridos. Estavam quase agonizantes e seus corpos em chagas e desnudos.Quando passávamos perto deles, alguns nos pediam com voz fraca quase inaudível :´Um pouco d’água!´ (4) ou ´Por favor me ajude!´
Um grito lancinante me fez parar.Dentro do rio ,perto da margem ,estava o cadáver nu de uma jovem ,e perto dele duas mulheres encolhidas num degrau .As cabeças delas pareciam aumentadas na metade do tamanho normal, e suas feições estavam horrivelmente deformadas. Pelo comprimento dos cabelos meio queimados, percebi que eram mulheres.
Por fim encontramos um barco e remamos para a outra margem. Estava quase escuro quando chegamos lá .Deste lado também havia muitos feridos. Um soldado agachados à beira do rio me pediu um pouco de água quente e, apoiando-se em meu ombro, caminhou penosamente pela areia.´Seria, melhor ter morrido”, disse de repente.Concordei intimamente, e naquele momento, sem que tivéssemos trocado uma só palavra, percebi que nós dois sentíamos a mesma raiva incontrolável diante da insensatez de tudo que víamos.
Sentado numa mesa, um homem com a cabeça enorme e queimada. Bebia água quente numa xícara de chá. Seu rosto parecia feiro de grãos de soja pretos. Seus cabelos tinham sido cortados horizontalmente na altura das orelhas.Mais tarde, ao tanto ver vitimas de queimadura com o cabelo assim, acabei por compreender que todos tinham a cabeleira queimada abaixo da aba do chapéu.
Quando caiu a noite, a cena ficou ainda mais aterradora. Gritos vinham de todos os lados: ´Água ! Água!´. De repente soou um alarma antiaéreo. Havia uma sirene intacta em algum lugar.Seu gemido varou a noite.Rio abaixo, o tremeluzir das chamas mostrava os focos de incêndio.
No quarteirão do templo inúmeras pessoas gravemente feridas se espalhavam pelo chão. Não havia sequer uma árvore ou uma barraca para abriga-las. Fizemos uma cobertura para nós, escorando algumas tábuas numa parede e ali nos abrigamos. Durante 24 horas eu e mais cinco pessoas noa amontoamos nesse pequeno espaço. A dois metros havia uma cerejeira ainda com umas poucas folhas. Sob ela estavam caídas duas meninas com uniforme escolar. Seus rostos estavam queimados e enegrecidos, e as costas magras expostas ao Sol. Elas imploravam água. Tinham chegado a Hiroxima no dia anterior para ajudar na colheita e caíram vítimas desta terrivel calamidade. O sol estava se pondo...
Antes mesmo do amanhecer ouvíamos a nossa volta o murmúrio de preces; morria gente sem parar .As duas meninas morreram assim que o sol raiou.
Pelo meio dia o alarma soou de novo. Ouvia-se um zumbido no céu (5). Morria gente a todo instante e ninguém vinha recolher os corpos. Desorientados e perplexos, os vivos vagueavam entre os mortos. Já podíamos ver as ruínas das ruas principais. Um espaço vazio cinzento se estendia sob um céu de chumbo. Somente as ruas, pontes e os braços do rio eram ainda reconhecíveis. Em meio a tudo isso, corpos hediondamente inchados e mutilados. O inferno tinha se tornado realidade.
Tudo que era humano tinha sido suprimido. Os rostos dos mortos eram todos iguais, como se usassem uma mesma máscara. A dor fazia os membros dos agonizantes se agitarem em contrações curiosamente ritmadas até que paravam de vez. Quilômetros de fios e incontáveis fragmentos de postes que os sustentavam espalhavam-se pelo chão, retorcidos e emaranhados. Ver um bonde de rodas para cima e todo queimado ou um cavalo morto grotescamente inchado dava-nos a impressão de estar no meio de um quadro surrealista.
Atravessamos uma extensão de ruínas que parecia não ter fim. O cinturão de casas arrasadas ia até os subúrbios. Só depois de Kusatsu foi que encontramos campos verdes e não devastados. A visão de libélulas em vôo gracioso comoveu-nos profundamente. Enveredamos então pela longa e monótona estrada para a aldeia de Yawata, onde chegamos a noite. De manhã tivemos que enfrentar novamente a dura realidade. Os feridos não estavam melhorando e os que nada haviam sofrido enfraqueciam dia a dia pela falta de comida.
Dias depois chegou um menino. Era meu sobrinho, que depois morreu em conseqüência dos ferimentos recebidos. Ele estava na escola quando a bomba explodiu, e na hora em que o clarão ofuscante iluminou a sala ele se atirou embaixo da carteira. teto ruiu e soterrou-o ,mas ele conseguiu sair por um buraco em companhia de alguns colegas. A maioria das crianças morreu instantaneamente.
Meu sobrinho fugiu para o monte Hiji com os amigos. Enquanto subia o monte ele vomitava um liquido branco. Uma semana depois de sua chegada à aldeia o cabelo começou a cair, e em dois dias ele estava completamente calvo. Já corriam boatos de que ninguém que perdesse os cabelos e sangrasse pelo nariz conseguiria sobreviver. Mas meu sobrinho conseguiu sobreviver por muito tempo apesar da gravidade de seu estado...
Ao anoitecer atravessei a ponte e me dirigi através do campo para a olaria que existe as margens do Yawata. Uma libélula preta secava as asas numa rocha. Banhei-me no rio aspirando profundamente. Olhando ao longe eu via o sopé da montanha escurecido pelo crepúsculo enquanto os cumes distantes ainda faiscavam ao Sol poente. Poderia ser uma paisagem de sonho. Acima de mim o céu era de um silencio absoluto. Tive a impressão de só haver chegado ao mundo após a explosão da bomba atômica.

Tamiki Hara.

Sofrendo desde 1945 os efeitos da radiação atômica, Tamiki Hara faleceu em 1951.
Notas
1)Hiroxima havia sido escolhida como alvo da bomba atômica muito antes de agosto de 1945.Assim a cidade não foi atingida por bombas convencionais, pois os Estados Unidos queriam medir os efeitos da Bomba atômica exclusivamente. Alem de Hiroxima e Nagasaki, Kyoto, a capital religiosa do Japão, era também uma alternativa, não sendo atingida por uma das duas bombas, pois no dia do ataque as suas condições climáticas não eram favoráveis...

2) A bomba explodiu a cerca de 600 metros de altura para aumentar o raio de abrangência de seus efeitos de destruição imediata.(por onda de choque, pulso térmico, etc.).

3)A onda de choque comprime o ar gerando ventos de até 600 km/h (no caso da pequena potência das duas bombas que explodiram no Japão.

4)Um dos sintomas da exposição a intensa radiatividade é uma sede incontrolável.

5)Antes da explosão o tempo estava bom em Hiroxima. Após a explosão, passado os efeitos imediatos (onda de choque, elevadíssimas temperaturas, radiação etc.) estranhas condições meteorológicas surgiram: No meio do dia um violento vendaval de 4 horas devastou ainda mais a cidade .À noite, uma parte da cidade foi castigada por uma chuva negra, oleosa e radioativa.

* É comum ouvir historiadores, analistas ou repórteres hoje em dia reforçar a tese de que as explosões das bombas apressaram o fim da guerra poupando a vida dos soldados que deveriam invadir o Japão. Porém tal versão não encontra respaldo na realidade dos fatos. Mesmo Churchill (líder dos Ingleses durante a II Guerra), afirma o contrário em suas memórias (livro Memórias da Guerra) onde escreveu: “É um erro supor que o destino do Japão foi decidido pela bomba atômica. A derrota do Celeste Império já estava assegurada antes de ser lançada a primeira bomba e ao esmagador poderio naval aliado é que se deve atribuir essa derrota. Somente esse poderio tornara possível a conquista de bases no Pacifico, de onde seria desencadeado o ataque final que, sem disparar um tiro, forçaria a capitulação do exército japonês”. (Nota: A frota de guerra japonesa havia sido praticamente destroçada na batalha de Midway no Pacífico).

As afirmações de Churchill foram confirmadas pelo “Relatório de Guerra do Pacifico” de autoria do “United States Strategic Bombing Survey”, segundo o qual “mediante a ação coordenada de um bloqueio e de um ataque aéreo direto seria possível obrigar o Japão a render-se sem ser invadido”.

O fato é que o holocausto de Hiroxima e Nagasaki foi uma calculada demonstração de força por parte dos Estados Unidos para todo o mundo, e, em particular, para a União Soviética de então.

Seja qual for o argumento ou ponto de vista, o que poderia justificar este premeditado atentado contra a humanidade? Nas duas cidades, instantaneamente morreram 200.000 pessoas, e outras tantas lentamente, ao longo dos anos, pelo efeito da radioatividade.


Rm
   - 06 ago 2005

Pesquisa recente nos EUA :

Segundo a pesquisa, 57¬ dos entrevistados aprovavam o uso das bombas contra Hiroshima e Nagasaki, enquanto 38¬ disseram desaprovar a medida. O Gallup afirmou que os números mais recentes eram semelhantes aos de 1955, quando 59¬ dos entrevistados disseram ser favoráveis ao uso das bombas atômicas e 38¬, contrários


Motta
   - 08 ago 2005

Parafraseando Axterix sobre o romanos ...

Estes americanos são loucos !


Rm
   - 06 ago 2006

Algumas armas sendo utilizadas.A que enegrece a pele e a descola do corpo (noticia veiculada sobre arma desconhecida sendo usada no Líbano) não se sabe o que é.

As “ bombas de fragmentação ”, são evidentemente destinada a matar e não a destruir. E o seu “aperfeiçoamento” tem prosseguido. A versão JSOW, é uma “cluster bomb” desenvolvida pela Raytheon conjuntamente para a Força Aérea e a Armada; tem 500 kg e cerca de 4 metros de comprimento, transportando 145 pequenas bombas incendiárias que são ejectadas a 100 metros de altitude para se dispersarem sobre uma superfície com um hectare de área; foi testada “ao vivo” no Iraque em 25 de Janeiro de 1999; em 16 Fevereiro foram lançadas várias dezenas sobre o que foi afirmado serem instalações militares na “zona de exclusão aérea”.[William Arkin, Washingtonpost.com, February 26, 2001]

“Bombas explosivas de ar – fuel” (FAE), foram desenvolvidas na década de 1960 pelos EUA e utilizadas no Vietname tendo em vista destruir abrigos subterrâneos e desflorestar o terreno. Este tipo de bombas foi “aperfeiçoado” e de novo utilizado sobre tropas entrincheiradas e sobre campos de minas na Guerra do Golfo. É também considerada uma arma de “guerra psicológica” em vista das dimensões do seu impacto. As FAE podem ser lançadas a partir de qualquer plataforma e sobre alvos muito diversos. Alguns outros países também já desenvolveram esta bomba; é o caso da Rússia e é o caso mais recente do Reino Unido. [Thermobaric Warfare, CND, 11 January 2001]

Este tipo de bomba consiste num contentor com uma substância volátil e em duas cargas explosivas; a primeira carga quando é despoletada a certa altitude produz a dispersão da substância volátil, de forma a esta constituir uma ampla nuvem de aerossol; a segunda carga explosiva produz depois a detonação da mistura ar-aerossol. Forma uma enorme e fulgurante bola de fogo e uma intensíssima onda de choque; no centro a pressão atinge inicialmente 30 atmosferas e a temperatura 3000 ºC; daqui o nome de bombas termobáricas que também lhes foi atribuído. Estruturas, árvores e pessoas sob essa bola de fogo são imediatamente esmagadas; a onda de choque propaga-se radialmente a uma velocidade várias vezes supersónica e gera à retaguarda uma forte depressão; esta súbita compressão-depressão é altamente destrutiva também; pessoas afectadas para além da zona letal e até uma distância que depende da altura da bola de fogo, ficam gravemente queimadas e intoxicadas pelos produtos da combustão e morrerão também.

Pelo seu poder destrutivo, esta bomba é comparável a uma munição nuclear de baixa potência sem contudo gerar resíduos radioactivos. Por outro lado, quando a segunda carga não detonar ou deliberadamente não for accionada, a nuvem de aerossol formada é altamente tóxica e resultará tão letal como uma arma química. Parece claro que as FAE se sobrepõe em alguns aspectos com as armas nucleares tácticas e com as armas químicas, pelo que a sua utilização deveria ser objecto de renúncia pela comunidade internacional.

Muito recentemente, surgiu o conceito de super-bomba convencional MOAB (Massive Ordnance Air Blast), a maior bomba convencional no arsenal norte-americano, com 10 toneladas, guiada via satélite, cuja detonação é tão potente que origina a ascensão de uma coluna de gás e poeira com semelhança à de uma explosão nuclear. Testada no início deste mês de Março, poderá estar já disponível para a ser utilizada nesta segunda Guerra do Golfo. [Robert Burns, U.S. Tests Massive Bomb Near Florida, Information Clearing House]