MODERNIDADE & CULTURA DE MASSAS

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”O que é modernidade? Como uma primeira aproximação, digamos simplesmente o seguinte: ’modernidade’ refere-se a estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência. Isto associa a modernidade a um período de tempo e a uma localização geográfica inicial, mas por enquanto deixa suas características principais guardadas em segurança numa caixa preta”.(GIDDENS, 1991, p.8)

MODERNIDADE & CULTURA DE MASSAS

 

 

 

Por Cláudia Nicácio

 

 

”O que é modernidade?

 

Como uma primeira aproximação, digamos simplesmente o seguinte:

 

’modernidade’ refere-se a estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência. Isto associa a modernidade a um período de tempo e a uma localização geográfica inicial, mas por enquanto deixa suas características principais

guardadas em segurança numa caixa preta”.(GIDDENS, 1991, p.8)

                     

 

A modernidade tem várias das suas características originadas a partir de transformações, especialmente de caráter institucional, que ocorreram na Europa ainda na Idade Média. Thompson (1995) descreve estas transformações como complexas e variadas, elas afetaram regiões da Europa e de diferentes partes do mundo, em alguns lugares o efeito foi mais profundo e prematuro que em outros. Elas também foram contingentes e relativas à história e características de cada lugar, o que também acarretou em diferentes resultados. Mas, o ponto de enfoque é que, independente da intensidade das transformações e seus resultados, novas instituições de poder surgiram enquanto outras perdiam sua função, práticas tradicionais foram gradativamente desaparecendo e dando lugar a novas ações, novas conveniências e novas formas de associações. O impacto das transformações também estava relacionado à expansão dos centros urbanos e dos estados que emergiam.

Thompson (1995) aponta três resultados como principais e que muito bem ilustram a emergência da sociedade moderna. Primeiro, o feudalismo europeu se transformou gradativamente no sistema capitalista de produção e troca. Segundo, o grande número de unidades políticas existentes na idade média foi fortemente reduzido com o tempo e inserido no sistema de estado-nação, as unidades passaram a ser controladas por uma administração central. Terceiro, com as guerras, e a preparação para elas, o poder militar foi crescendo e se manteve concentrado nas mãos do estado-nação e o uso da força foi legitimado dentro do território.

 

O processo que determinou estes três resultados pode ser resumido, ainda de acordo com Thompson. Segundo o autor, a economia medieval era predominantemente agrária e baseada na pequena escala de produtos unitários, ou seja, era uma economia de subsistência, embora alguns excessos também fossem gerados e redes de mercado existissem. A partir do século XVII os mercados começaram a se expandir significamente, comerciantes, artesãos e outros acumuladores de capital começaram a investir no crescimento da produção e do mercado. Surge uma nova relação com a economia e é crescente o uso da moeda nas redes de mercado. Esta situação coexistiu durante vários séculos com a tradicional relação feudal na Europa, entre sucessivas fases de expansão e contração.

 

A partir de 1450 emerge na Europa o sistema capitalista, que tem como características principais a acumulação individual de capital, produção em escala, contratação de funcionários assalariados, venda de produtos e finalmente o lucro. No final do século XV as empresas capitalistas estavam estabelecidas nos maiores centros de comércio da Europa e no decorrer do século XVI expandiram suas atividades consideravelmente, inclusive com mercados de outras partes do mundo.

 

A Revolução Industrial, no final do século XVIII e início do século XIX, também teve importante papel dentro do sistema capitalista. Com o ingresso de novos métodos de produção, o poder da máquina, que passa a fazer parte do cotidiano das empresas, e a ramificação e a divisão do trabalho nas fábricas, as empresas aumentam consideravelmente a capacidade de produção e entram para era da indústria de manufaturados em larga escala.

 

Não tardou para os estados da Europa consolidarem seu controle sobre os territórios do continente e expandirem suas esferas de poder e influência também em outros continentes. Os territórios extrangeiros representaram nesse momento uma nova fonte de renda e se tornaram importantes parceiros de mercado para as empresas capitalistas e para os comerciantes. Com isso o capitalismo começa a romper com todas as suas fronteiras nacionais e, aos poucos, vai consolidando o que seria então chamado de capitalismo global.

 

À medida em que os estados se tornavam mais fortes, sentimentos de nacionalismo eram identificados. Eles emergiam diante de uma identidade dentro de fronteiras e eram acompanhados da criação de símbolos de identificação. Era uma identificação nacional que pode ser definida como o sentimento de pertencer a um território particular, dividir direitos comuns, doutrinas e tradições. O que também tinha desvantagens, como, por exemplo, a de conter tendências de suporte ao poderio militar. Este senso de identidade nacional esteve fortemente ligado ao desenvolvimento de novos significados de comunicação e idéias para expressar e difundir a linguagem em comum.

 

O desenvolvimento das sociedades modernas envolveu também um processo diverso de transformação cultural. Mudanças que ocorreram em algumas regiões não ocorreram em outras ou ocorreram, mas de diferentes formas. Com isso, torna-se difícil tirar conclusões generalizadas sobre as mudanças culturais. Entretanto, algumas considerações podem ser feitas, como a observação de que a ascensão da sociedade moderna e industrial foi acompanhada do declínio da influência das crenças religiosas e de uma série de inovações técnicas associadas à produção de materiais impressos, codificação da informação e produção de formas simbólicas de comunicação. Estas mudanças começaram a ser percebidas depois do fortalecimento do poder nas mãos do estado-nação, levando a se desenvolver na Europa um sistema particular de administração, que aos poucos abandonava as influências da igreja, que por sua vez, perdia gradativamente a autoridade e o poder de atuação junto à política dos estados. No século XVI, com o protestantismo, o monopólio da igreja católica foi completamente quebrado e ela entra em crise e se fragmenta. Paralelamente, ocorre a gradual expansão dos sistemas de conhecimento e aprendizado e o desenvolvimento de ciências como astronomia, botânica, medicina e muitas outras. Com a emergência destas ciências houve um forte estímulo para a formação de estudantes e o aprendizado nas universidades se tornou mais liberal.

 

Outro ponto que também merece destaque e que é comentado por Giddens (1991), foi a invenção do relógio mecânico, que demarca significantemente a relação da sociedade com o tempo. Enquanto nas sociedades agrárias o tempo era impreciso, e sempre associado a lugar - as pessoas usavam marcadores espaço-sociais como "quando" e "onde" para tentarem expressar o tempo - na sociedade moderna, quando o relógio mecânico entra em cena e é difundido, no final do século XVII, o tempo passa a ser medido com exatidão. Isso marca definitivamente a separação entre tempo e espaço. A padronização do calendário também ocorre nesta mesma época.

 

Após o surgimento do novo estado-nação, a mudança para o sistema capitalista, a revolução industrial, a quebra do monopólio da igreja católica e a expansão dos sistemas de conhecimento e aprendizado, começa uma mudança nos padrões de comunicação e interação sem precedentes na história e que foi denominada "mediatizacão da cultura". É quando também surgem as empresas de comunicação e mídia, que vêm expandindo sua atividades desde então.

 

O uso da comunicação e da mídia cria novas formas de ação e interação no mundo, novas formas de relação social, um novo olhar sobre o outro e sobre si mesmo. As relações que antes eram face-a-face assumem características midiáticas, é possível se relacionar com pessoas que estão em outros lugares. Não tardou para a informação atravessar os oceanos, o desenvolvimento da comunicação, da mídia, da indústria e da informação se expande para todo o mundo. É o fenômeno da globalização.

 

"Globalização como conceito se refere tanto à compreensão do mundo quanto à intensificação da consciência do mundo como um todo. (…) A menção à idéia de desglobalização – por assim dizer, tentativas de desfazer a compreensão do mundo – deve nos relembrar que o que correntemente chamamos de globalização é um processo longo, desigual e complicado"[1] (R.Robertson, Globalization. Social heory and Global Culture, pp. 8 e 10)

 

É no final dos anos 20 que nasce o termo "cultura de massas" para definir uma era em que os meios de comunicação e informação são usados para atingir milhares de pessoas ao mesmo tempo. A sociedade tem acesso a praticamente todo o tipo de informação, independente de lugar ou tempo. A mídia exerce enorme poder sobre as culturas, é a grande formadora de opinião das sociedades modernas e contemporâneas. A Escola de Frankfurt formula o conceito de "indústria cultural", significando a inserção no mercado de produtos culturais em série que são consumidos pela sociedade como estipula a mídia, que, por sua vez, tem o poder de manipular as massas, "ditando", por exemplo, o que deve ser consumido. O que também pode ser descrito como a banalização da cultura.

Domingues, ao citar Adorno e Horkheimer, expoentes da Escola de Frankfurt, menciona que estes autores consideravam a "indústria cultural" extremamente manipulativa, isolando as pessoas e influenciando suas capacidades racionais ao submetê-las incansavelmente à publicidade e consumo dos mesmos produtos. A liberdade de escolha não passaria de pura ilusão, sendo o conformismo o corolário da indústria cultural. Para Domingues, há muito de nocivo sobretudo na "cultura de massas", que visualiza o lucro a partir da domesticação das populações contemporâneas. A oligopolização no terreno da "indústria cultural" internacional é assustadora e deveria alarmar inclusive os que acreditam na benignidade dos meios midiatizados. Domingues ainda ressalta a posição de inferioridade em que se vêem aqueles que não têm acesso aos meios de produção de programas e de informação, o que obviamente recria formas de estratificações sociais.

 

Para citarmos um exemplo da "cultura de massas" no Brasil vamos analisar a popularização do CD, na esfera musical, que de acordo com Dias(2000), já era padrão de consumo na Europa desde o início de sua comercialização (1983). É a partir do ano de 1993 que o CD se populariza no Brasil; nos primeiros doze meses em que a vendagem de CDs superou a de LP, metade dos CDs eram relançamentos de antigos sucessos. O consumidor buscava no mercado os CDs que já possuía em vinil. Nesta ocasião o mercado é inundado por coleções como "Grandes Mestres da Música" ou coletâneas e lançamentos do tipo 2 em 1. O consumo de CDs passa então a ser visto como sinônimo de modernidade. Adorno, ao discutir o advento das novidades no mercado diz que "é com razão que o interesse de inúmeros consumidores se prende à técnica, não aos conteúdos teimosamente repetidos, ocos e já em parte abandonados" (ADORNO E HORKHEIMER.. P. 127).

 

Uma das características da Indústria Cultural é a repetição de fórmulas consideradas consagradas, como a música popular romântica e suas histórias de final feliz. Não há o conhecimento do ouvinte frente a uma nova música, mas sim o reconhecimento. Ou seja, mesmo ao escutar a música pela primeira vez, ela já lhe tem uma fórmula familiar. O ouvinte passa então por um processo de reconhecimento, o que faz com que ele aceite e goste desta "nova" música. Com isso as pessoas têm os seus sentidos e desejos entorpecidos, limitando, assim, o exercício de sua sensibilidade.

 

Contudo, Sorj (2003), defende a idéia de que embora muitas das necessidades da sociedade contemporânea sejam produto da publicidade e de uma sociedade dominada pelo exibicionismo e ostentação, existe o que ele chama de "necessidades reais". Para ele, a sociedade moderna é sim caracterizada pelo consumo e as classes dominantes marcadas pela futilidade e desejo de ostentar, mas, no entanto, ele considera que os produtos de consumo são, em sua maioria, condição de acesso à educação, trabalho, saúde e sociabilidade. Sendo assim, estes seriam os motivos que levaram a sociedade atual a ser caracterizada como consumista, e não a massificação como criadora da necessidade das pessoas de obter cada novo produto lançado pela mídia. Sorj (2003) ainda conclui dizendo que a maioria dos produtos de consumo são usados porque são úteis em um contexto contemporâneo, embora existam muitas críticas elitistas da sociedade de consumo. São produtos que representam tecnologias que potencializam a qualidade de vida e a interação social. Não os incorporar, dependendo do grau de disseminação, significa ostracismo social, citando como exemplos não possuir telefone ou, cada vez, mais um endereço de e-mail.

 

Referências Bibliográficas

 

DIAS, Márcia Tosta. Donos da Voz: Industria Fonografica Brasileira e Mundialização.  São Paulo: Boitempo Editorial, 2000.

 

DOMINGUES, José M. Sociologia e Modernidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

 

 

GIDDENS, Anthony, As Consequências da Modernidade. São Paulo, UNESP, 1991.

 

 

R. Robertson, Globalization. Social Theory and Global Culture. London, Sage, 1992.

 

 

SORJ, Bernardo. Brasil@povo.com: A Luta Contra a Desigualdade na Sociedade da Informação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Brasília, DF, Unesco, 2003.

 

 

THOMPSON, The Media and Modernity. Cambridge, Polity  Press, 1995.

 


[1] Não vamos entrar em maiores detalhes sobre o processo de globalização. O que interessa aqui são outras denominações advindas deste fenômeno, como a "cultura de massa" e a "indústria cultural".

 
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