Sou a fofoca corporativa, também conhecida como rádio peão. É muito fácil me encontrar, basta dar uma voltinha nos corredores empresariais e você vai me achar na forma de um bom bate-papo. Sei que muita gente não vai com a minha cara. Minha reputação não é das melhores, sou considerada desagregadora e criadora de problemas. No entanto, as coisas podem não ser bem assim.
Eu posso, por exemplo, trabalhar em prol de uma carreira. De que forma? Criando uma rede informal de dados não disponíveis no “manual oficial da empresa”. Sabemos que toda organização tem uma cultura específica, que é todo o conjunto de informações e comportamentos não explicitados na missão e nos objetivos da instituição. É a famosa cultura organizacional, uma espécie de marca digital que cada empresa carrega dentro de si.
Agora imagine, leitor, que você acaba de chegar a uma determinada organização. Seu desejo é crescer lá dentro, construir uma carreira sólida e notória. O problema é que você não conhece a cultura daquele lugar porque ainda não teve tempo de absorvê-la. Por enquanto, apenas as regras claras e oficiais estão ao seu alcance. Mas você sabe que ficar ligado nos dados extra-oficiais é fundamental para o seu crescimento. Pois bem, é aí que eu entro em ação para facilitar sua vida. Estar atento aos papos informais na hora do cafezinho pode lhe ajudar a entender uma série de peculiaridades da cultura em questão, como quem é quem nos departamentos, qual é o estilo de liderança de determinado gerente, que tipo de comportamento o diretor aprecia nas pessoas e mais uma série de coisas que o ajudarão a caminhar com desenvoltura nas estradas do novo trabalho. E assim, entre um gole de café e outro eu exponho a radiografia completa da cultura ambiental em que você está inserido.
Mas nem tudo são flores. É claro que também posso ser direcionada para a desqualificação alheia. O problema é que ficar discutindo a opção sexual do chefe ou a quantidade de vezes que a esposa de um supervisor já se entregou a aventuras extraconjugais não costuma alavancar os índices de produtividade de uma empresa. Ao contrário, navegar nas ondas da maledicência pode interferir negativamente no clima da organização, gerando mal estar e desmotivação.
O fato é que eu sou como vocês, seres humanos. Tenho defeitos e virtudes, e ambos costumam causar impactos nos ambientes. As conseqüências de minhas ações dependerão exclusivamente do tipo de direcionamento que vocês estiverem me dando. Se eu for usada apenas como fonte estratégica de informações, posso ser bastante útil no desenvolvimento de carreiras. Mas se estiver sendo direcionada para a depreciação coletiva, as coisas podem não acabar nada bem. De um jeito ou de outro, minha consciência estará sempre limpa. Afinal, sou apenas um instrumento na boca das pessoas, e instrumentos são usados. Por isso o mérito de minhas ações, sejam elas boas ou más, será sempre de vocês. Nunca meus.