Por que eu devo ler este artigo: O Product Owner é um papel em crescente valorização não só no mercado brasileiro, mas também no global. As opções de trabalho para essa função em diferentes indústrias de todos os portes são inúmeras, mesmo em tempos de crise. Mas o que faz de um profissional um grande Product Owner? Este artigo traz 10 pontos para que os profissionais ainda em formação possam desempenhar um papel cada dia mais estratégico e menos operacional tornando-se, como alguns chamam, verdadeiros Product Champions.

O Product Owner é um papel que já se tornou imprescindível na maior parte das empresas atuais. Empresas de mídia e comunicação, comércio eletrônico, fábricas de software, instituições financeiras, fábricas de tratores... Sistemas internos, aplicativos nativos, portais de massa, software as a service... Independentemente do produto ou da indústria, o Product Owner está presente cumprindo uma função fundamental para o sucesso do negócio. Mas qual o caminho a seguir para se tornar um grande profissional da área?

O trajeto óbvio é o analista de requisitos, de sistemas ou de negócios que, ao ingressar no mundo ágil, faz um curso de um final de semana, tira uma certificação e pronto: nasce mais um Scrum Product Owner no mercado. Na verdade, esses cursos são um excelente pontapé inicial, mas estão longe de ser suficientes como formação. É um primeiro passo e não o último passo. De modo geral, nessa etapa, o profissional ainda não tem bagagem o suficiente para ter uma atuação mais estratégica e menos operacional. É capaz de interagir com a área de negócio, mas de forma muito subordinada. Não possui, ainda, conhecimento suficiente para realmente construir uma visão e uma estratégia de produto sólida. Envolve-se muito mais com o sucesso do desenvolvimento do que com o êxito do produto em si. Pouco investe nas fases de concepção e otimização. E, provavelmente, ainda não consegue realmente colocar à prova suas habilidades de comunicação.

Ao ingressar na carreira de Product Owner, o profissional tem duas possibilidades de caminho a seguir. Ou para no básico, faz o arroz e feijão e, com tempo e experiência, pode vir a cumprir o papel de forma adequada ou mesmo boa; ou vence o comodismo e vai além, buscando se tornar um Product Champion.

Mas qual seria então o próximo passo de formação para quem está começando sua carreira e quer ir além do curso do CSPO? Há algum MBA, mestrado ou treinamento adicional? Infelizmente não. E também não há receita de bolo. Os caminhos que levam um profissional a se tornar um grande Product Owner são tortuosos e exigem tempo, esforço e dedicação. Mas, para aqueles que possuem a vontade ingressar nessa jornada, a compensação é gigantesca. Na realidade, ser um Product Owner é um trabalho que pode ser muito gratificante e divertido. É uma função extremamente criativa, mas também analítica. É business, mas também é tecnologia. É buscar resultado econômico, mas também a melhor experiência para o usuário final. A vida de um Product Owner é esta eterna dicotomia e aqueles que seguem essa carreira certamente não terão dias monótonos pela frente.

Além disso, o Product Owner é um papel em crescente valorização não só no mercado brasileiro, mas também globalmente. As opções de trabalho em diferentes indústrias de todos os portes são inúmeras, mesmo em tempos de crise.

Entenda a carreira que você está escolhendo

Um dos motivos pelos quais alguns profissionais nunca conseguem sair do operacional é a falta de consciência a respeito do universo em que está inserido. É simples, determinante, mas por incrível que pareça não tão óbvio: a escola de estudo de um Product Owner é a escola da gestão de produto. Muitos iniciantes buscam muita informação sobre Scrum, Kanban, metodologias ágeis, desenvolvimento ágil, priorização do backlog ou como escrever boas user stories. Tudo isso faz parte e é fundamental, mas não é suficiente. É só o básico. Quando olhamos o ciclo de gestão de um produto de forma mais ampla, entendemos que existem as fases de concepção, desenvolvimento e otimização, e o Product Owner precisa entender e aperfeiçoar-se em cada uma delas.

Uma boa expressão chave de busca é “gerenciamento de produto ágil” e não apenas “desenvolvimento ágil”. A gestão de produto engloba mais do que coletar requisitos, definir o que o produto tem ou não tem. É mais do que uma lista priorizada de itens a fazer, histórias de usuários e critérios de aceite. É um pouco de modelagem de negócios, de mercado, de experiência de usuário, de marketing digital e de análise de dados. Um excelente Product Owner entende o negócio que está atuando, a função do seu produto dentro desse negócio, quem é seu público alvo, quais os indicadores de performance e como medi-los, e, especialmente, como desenhar, executar e ajustar a estratégia para atingir aquilo que chamamos de sucesso.

O Product Owner é alguém que quer se tornar um grande gerente de produto. Definido isto, há diversos sites, blogs, comunidades de prática e livros que começam a preencher as lacunas que o curso do CSPO deixou em aberto.

A grande responsabilidade de ser o Owner

O nome diz tudo: o owner é o dono. Esta palavra indica empoderamento, autonomia, mas traz consigo também uma grande responsabilidade. Embora seja verdade que o Product Owner é apenas um e o sucesso de um produto se gera a partir do trabalho coletivo de um time, a responsabilidade maior está sim nos ombros do P.O. Isso significa que ele precisa liderar, agir e influenciar desenvolvedores, marqueteiros, produtores de conteúdo, parceiros de mercado, investidores, áreas de negócio, operação e diversas outras áreas. Ele precisa trazer todos esses diferentes interlocutores à colaboração e ao engajamento, sempre buscando um objetivo final: o sucesso do produto.

Se qualquer ponto da cadeia falha e esse ponto é prejudicial ao êxito do produto, esse profissional deve ser o grande advogado que buscará intermediar e instigar a solução. Assim como um Scrum Master remove os impedimentos que atrapalham o dia a dia do time e do desenvolvimento, o Product Owner tem que resolver os pontos e riscos que estão impedindo o produto de atingir seus objetivos. Ou, então, adaptar sua estratégia quando necessário.

A verdade é que, estando no papel de Product Owner, reclamar e encontrar desculpas não é uma atitude que gera resultados: “O problema é que o Business Owner não tem tempo para falar de negócio”, “O problema é a área usuária, que se recusa a usar o produto”, “A área de marketing não se interessa pelo produto e não estamos conseguindo uma boa divulgação”. Todas essas são frases possíveis para o contexto de atuação desse papel. Porém, ao se deparar com esse tipo de situação, a melhor atitude a ser tomada em prol do produto é: “O que eu, dono desse produto, posso e vou fazer para mudar este cenário?”, “Qual será a minha estratégia para mudar essa situação?”. Um grande Product Owner tem a consciência de que, mesmo quando a responsabilidade não é sua, de certa forma a responsabilidade é sua. Ou, em linguagem mais moderna, é menos “mimimi” e mais “go go go”.

Todo herói tem um mentor

Todo aprendiz tem um mentor. Alguém mais experiente para se observar, obter conhecimento, tirar dúvidas e anseios. No Vale do Silício ou em aceleradoras, o processo de mentoria é bem estabelecido e altamente valorizado. Startups promissoras são mentoradas por gestores de produto e de negócio bem-sucedidos e com mais bagagem de mercado. É uma boa ideia, portanto, repetir esse modelo em um âmbito mais pessoal e de carreira, identificando possíveis mentores que possam ser uma referência, fonte de conhecimento e inspiração para o Product Owner em formação.

O mentor não necessariamente é o gestor direto do profissional. Pode ser um colega. Um consultor. Alguém de outra área. O importante é que seja alguém que possua o conjunto de conhecimentos e habilidades que se deseja desenvolver.

É importante dizer que o mentor não é um professor. Seu papel e obrigação principal dentro da empresa provavelmente não é ensinar. É possível, portanto, que essa pessoa não possua muita disponibilidade de tempo. Sempre utilizando o bom senso, o Product Owner deve buscar criar esses espaços para aprendizagem, troca de conhecimento e, principalmente, obtenção de feedback e orientação. “Posso participar do seu workshop como observador? Gostaria de aprender mais sobre como conduzir um momento como este”, “Excelente o trabalho que você realizou. Poderia me explicar a lógica que você usou?”, “Você teria 30 minutos para fornecer feedback sobre roadmap do meu produto? Seria interessante eu obter a visão de alguém mais experiente”, “Você gostaria de um assistente para seu próximo workshop com clientes? Seria uma grande experiência para mim” são apenas alguns cenários possíveis para aprender mais rápido a partir do conhecimento alheio.

Posto que as habilidades que um Product Owner deseja obter são vastas e de campos diferenciados, é bem possível que esse mentor na realidade sejam mentores. Ao longo de sua carreira, o P.O. provavelmente vai se deparar com muitos mentores, vai trocar de mentor ao longo do tempo, e, quando menos espera, perceberá que está começando a ter seus próprios mentorados.

É importante aprender a falar negócio

Muitos Product Owners reclamam que não se sentem realmente donos do produto. Que não possuem espaço para tomada de decisão. Embora, infelizmente, isso de fato ocorra mesmo em empresas ditas ágeis, a verdade é que autonomia não se ganha, se conquista. E é bem mais difícil conquistar autonomia sem falar a língua dos negócios.

Um profissional só ganha liberdade para trabalhar quando conquista a confiança das pessoas que o circundam: gestores, investidores, áreas de negócio, colegas, entre outros. Essa confiança muitas vezes se constrói com base no nível de segurança e conhecimento que o Product Owner demonstra a respeito do trabalho que está desenvolvendo. Mas, como determinar uma boa estratégia de produto desconhecendo as particularidades do negócio? Como ter bons argumentos para provar seus pontos de vista quando não se conhece os dados? Um Product Owner que não entende do seu negócio de atuação provavelmente não conseguirá agir em um âmbito estratégico e se estagnará em uma atuação meramente operacional. Não conseguirá de fato colaborar ativamente com a área de negócio, pois não possui conhecimento suficiente para isto. O risco, aqui, de se tornar um tirador de pedidos é muito grande.

Ao longo da carreira, um P.O. tem a oportunidade de trabalhar em diversos negócios e contextos diferentes – mesmo dentro de uma mesma área ou empresa. A tarefa número um para esse profissional quando inicia em um produto qualquer é entender tudo o que puder não só sobre o produto, mas também sobre o negócio que está inserido: qual o mercado, como ele funciona, quem são os players e as referências, qual o modelo de negócio, quais os objetivos de negócio, o que está indo bem e o que está indo mal, quais as oportunidades de atuação, quem são as pessoas, como funcionam ou não funcionam os processos, etc. Ao longo do caminho ele verá que algumas dessas respostas podem inclusive ser inexistentes. Nesse caso, ao invés de se conformar e trabalhar no escuro, o profissional deve buscar construir e trazer a luz esse conhecimento junto com as pessoas pertinentes. O produto não tem modelo de negócios bem definido? Pois bem, o Product Owner deve trazer as pessoas competentes para clarificar ou criar conjuntamente essa visão.

Leva um tempo, mas o quanto antes o P.O. entender tudo isso, o quanto antes ele vai ganhar a confiança daqueles que o rodeiam. E certamente poderá executar um trabalho mais sólido e bem embasado. Nesse nível, Product Owner e Business Owner de fato poderão trabalhar como um par. Obviamente, é esperado que o Business Owner tenha um conhecimento um pouco maior do negócio que o Product Owner. Mas este terá um conhecimento maior de gestão de produtos. Conseguindo conversar de igual para igual, essa dupla tem condições de chegar mais longe e obter melhores resultados.

Mas como obter este conhecimento? Conversando com pessoas de diversas áreas, acessando relatórios e números que a empresa já tenha disponível, acessando as ferramentas corporativas (QlikView, Google Analytics, etc.), fazendo pesquisas, lendo matérias sobre o mercado ou pesquisando os concorrentes. Enfim, os meios são inúmeros, mas o importante é, aos poucos, planejar como ir preenchendo os gaps de conhecimento que todo Product Owner que está ingressando em um novo negócio, independentemente do nível de senioridade, possui.

Cultura data driven

Um dos aspectos mais valorizados atualmente pelo mercado em um Product Owner é a sua capacidade de tomar decisões com base em dados. No campo da gestão de produto, há cada vez menos espaço para achismos, palpites e estratégias pouco embasadas. Quando um P.O. toma uma decisão a respeito do seu produto, ele deve ser capaz de explicar seus motivos. Ele precisa saber mostrar qual o racional utilizado para chegar àquela conclusão. E isso provavelmente só será possível através de números.

Independente se este possui uma área de métricas como apoio ou não, o bom Product Owner define quais são os indicadores que precisa acompanhar para entender se o seu produto está cumprindo seus objetivos. Ele monitora esses números com frequência. Mais importante ainda: ele compartilha essa informação com seu time, ajudando a fortalecer essa cultura em toda a empresa. Frente aos resultados, ele planeja ações para mudar aquilo que vai mal e comemora com todos os aspectos que vão bem. E, principalmente, questiona o tempo inteiro as suas próprias decisões: “Eu realmente possuo argumentos, fatos e dados suficientes para seguir este caminho?”. Um bom P.O. antecipa e está preparado para responder as perguntas difíceis.

A cultura analítica, na verdade, auxilia muito nas discussões e negociações a respeito do roadmap e do futuro do produto. Não é à toa que a frase “contra fatos não há argumentos” se torna cada vez mais célebre no mundo corporativo. A verdade é que aqueles que estão fora de contexto não são obrigados a entender imediatamente a lógica que um Product Owner utilizou – depois de muito raciocínio e trabalho - para traçar a sua estratégia de produto. É de responsabilidade deste, portanto, torna-la mais visível, clara e facilmente compreensível para todos os interlocutores. O fato é que, com um bom embasamento, orientado à dados, o P.O. tende a conquistar cada vez mais a confiança daqueles que o circundam, pois torna-se óbvio que o seu plano de fato faz sentido.

Outro aspecto muito importante da cultura data driven é a experimentação. Na gestão de produto, os profissionais devem ter a humildade de entender que, até que se comprovem, suas expectativas de resultado são meras hipóteses. Hoje existem diversas ferramentas e meios para realização de teste A/B, por exemplo. Uma boa prática é testar se as hipóteses são válidas antes de tornar-se aparentes as novas funcionalidades do produto para todo o universo de utilização. Quem trabalha com e-commerce sabe: uma mera mudança de texto pode impactar a conversão e gerar um prejuízo financeiro considerável. Se o impacto de uma funcionalidade é zero ou negativo, o Product Owner provavelmente vai tomar a decisão de não lançá-la. E tudo bem. Uma vez que a gestão de produtos é baseada em hipóteses, muitas vezes os palpites estão mesmo errados. Faz parte do jogo. Não tem problema falhar desde que se falhe rápido e o erro gere aprendizagem e mudança de estratégia. Mais importante que isto, é não deixar o ego insistir no erro. Se o “feeling in my guts” aponta para um lado, mas os resultados apontam claramente para outro, o bom profissional tende a ser pragmático e, pelo menos para esta rodada, admite a derrota.

Há muita literatura disponível hoje em dia a respeito de teste e validação de hipóteses mesmo quando o produto não está em uma etapa de otimização. Lean Startup, Customer Development, Lean Metrics e Javelin Board são boas fontes de informação para aqueles Product Owners em formação que querem aprender mais sobre isto. E se não existem no Brasil muitos cursos disponíveis sobre a gestão de produto propriamente dita, há diversos workshops e eventos focados em empreendedorismo e startups que contribuem imensamente para a formação dos profissionais da área. O P.O. não deixa de ser um empresário, um empreendedor, e o quanto mais envolver-se com este campo de estudo, mais desenvolverá as habilidades e conhecimentos necessários para realizar uma boa gestão de produto.

Outro ponto importante é que a cultura data driven não exclui a realização de testes com uma abordagem mais qualitativa. O Product Owner e os números devem ser os melhores amigos, mas, ainda assim, clientes são pessoas. O fator humano não deve ser esquecido. É sempre uma boa estratégia, para aqueles que possuem esta oportunidade, ouvir e trazer o usuário para perto, observar como este interage com o produto e entender melhor seu perfil e expectativas. Sendo assim, durante qualquer fase do produto, o P.O. pode contar com seus colegas de UX para desenvolver pesquisas com clientes, testar navegação e fluxos, coletar impressões sobre concorrentes e responder diversas outras perguntas e indagações.

O Product Owner também é um comunicador

Uma das habilidades fundamentais de um bom Product Owner é a sua capacidade de comunicação. Ele deve falar várias línguas. Não, não estamos falando aqui de línguas estrangeiras – embora certamente a aprendizagem de uma segunda língua sempre é um diferencial, especialmente em empresas multinacionais. O P.O. deve saber falar business, como já mencionado. Mas, mesmo não tendo perfil técnico, também tem que conhecer um pouco de “tequiniquês” para conseguir entender e interagir com o time de desenvolvimento. Em muitos cenários, terá que aprender, ainda, a falar a língua das pessoas da operação. Quase todo o profissional da área possui diversos interlocutores, de diversos perfis, e diferentes estilos de comunicação. Cabe ao Product Owner saber circular naturalmente em todos estes meios e falar a língua de todas estas pessoas. Comunicar-se com as partes interessadas, ganhar engajamento e empatia. Ser e fazer parte.

Adicionalmente, todo o Product Owner deve usar sua capacidade de interagir para comunicar também o seu produto. Vende-lo internamente. Ser seu maior advogado. E gerar nos outros a vontade de advogar em prol do produto também. Um produto bem comunicado é aquele que, quando o P.O não está na sala, uma parte interessada qualquer – desenvolvedor, Business Owner, operação – saiba responder pelo menos as questões básicas a respeito do mesmo. A sua visão de futuro. Os próximos passos. Onde estamos agora. É incrível como um Product Owner que também é um bom comunicador encontra aliados para a sua estratégia.

Por fim, faz parte ainda do trabalho estar sempre pensando em como comunicar o produto para o público final. Como o produto vai interagir com o usuário? Qual a linguagem de comunicação? Um bom P.O. sabe que não precisa depender apenas do marketing para divulgação. A melhor promoção é a espontânea. É aquela feita dentro do próprio produto. Quando o LinkedIn mostra uma lista de amigos que já estão cadastrados no site e no final instiga o usuário a convidar os conhecidos ainda não registrados, ele está fazendo nada mais do que comunicação. Este é o tipo de promoção que um Product Owner deve estar sempre pensando. Como utilizar o próprio produto e a própria base de usuários para conquistar ainda mais clientes?

A prática leva à perfeição

Assim como o ágil prega a aprendizagem prática, a formação de um P.O. também é iterativa incremental. Muitos iniciantes sentem-se inseguros em atuar com técnicas antes nunca utilizadas. Não se sentem capazes por não terem experiência. Mas a verdade é que a única forma de aprender realmente é expondo-se à prática. Um bom exemplo disto são os workshops. Este tipo de técnica auxilia muito um P.O. no momento de conceber o seu produto. Workshops de Personas, de Business Model Canvas ou Lean Canvas, User Story Mapping, Product Vision são só algumas opções que podem vir a calhar para quem está dando os primeiros passos na construção de uma nova iniciativa. A ideia é pegar um time de pessoas multidisciplinar, que tenha as habilidades e conhecimentos necessários para que seja atingido o objetivo final do workshop. Neste caso, o papel do P.O. é o de facilitador da criação colaborativa. Este é outro ponto importante a ser considerado: as decisões e criações compartilhadas tendem a ser mais assertivas. É fato que várias mentes pensam melhor do que uma. Um Product Owner sábio é aquele que sabe aproveitar o conhecimento e potencial das pessoas ao seu redor.

Para quem nunca conduziu um workshop, ou mesmo deseja utilizar qualquer outra técnica nova, a melhor maneira de aprender é justamente tentando. O importante é estudar como funciona, ter um bom planejamento e, é claro, pilotar. A primeira tentativa, obviamente, pode ser feita com um quórum menor e com pessoas que o Product Owner se sente mais à vontade. Quando é possível, pode-se buscar ainda o auxílio de um profissional com mais senioridade para servir de coaching nesta primeira experiência. O importante é sempre pedir feedback ao final. Entender o que os participantes gostaram e o que mudariam. A partir das opiniões coletadas, ajusta-se o planejamento para uma próxima vez. Certamente, técnica e performance vão melhorando progressivamente a cada nova facilitação. O fato é que não existe possibilidade de melhoria na falta de tentativa. Então, o melhor que um Product Owner em formação pode fazer é começar a testar as técnicas que lhe interessam, e já.

Gestão de tempo e trabalho colaborativo

Provavelmente aqui o Product Owner em formação já chegou à conclusão de que precisará ser um verdadeiro herói. Vai ter que jogar no gol, no ataque, na defesa e ser o técnico, tudo simultaneamente. Além de se qualificar em seu foco de atuação, precisará aprender também sobre negócio, tecnologia, comunicação, marketing e responsabilizar-se sobre o produto em um âmbito global. Sim, é muito a fazer e são poucas as horas em um dia. Bom, ninguém disse que ia ser fácil e, como já mencionado, os caminhos que levam um Product Owner a tornar-se um Product Champion são mesmo tortuosos.

Como, então, organizar o tempo para cumprir todos os aspectos do trabalho de um Product Owner e ainda conseguir ter vida?

Primeiramente, uma das habilidades mais básicas deste papel é a capacidade de fazer uma boa priorização. Da mesma forma que este profissional prioriza seu backlog, ele deve também fazer escolhas a respeito do seu próprio tempo. Um P.O. não precisa lidar com todos os assuntos relacionados ao seu produto ao mesmo tempo. Ele tem que ser capaz de entender qual é o seu próximo passo: aquilo que, se não for feito agora, prejudicará o produto. O Lean prega que as coisas sejam feitas no “último momento responsável” para que, em caso de mudança, não tenhamos desperdícios relativos a trabalhos que nunca serão aproveitados. E esta é provavelmente uma boa diretriz para qualquer Product Owner: o foco apenas naquilo que é importante neste momento. Os conceitos do ágil também são muito úteis aqui. Melhor iniciar uma só tarefa e finaliza-la do que abrir várias frentes ao mesmo tempo e não conseguir direcionar nenhuma adequadamente.

Há algumas atividades, é claro, que são on going. É interessante reservar alguns momentos do dia e da semana para estudar os números do produto, pensar no futuro, ou fazer benchmark de mercado, por exemplo. É fundamental entender este tempo como algo tão fixo como uma reunião recorrente, por exemplo. Um dos maiores desafios de qualquer Product Owner é, mediante os incêndios do dia a dia, encontrar tempo para atuar de forma estratégica. Mas, se o profissional não desejar ficar parado apenas no âmbito operacional, ele precisa levar muito a sério os espaços na agenda dedicados à estratégia do produto. Bloquear alguns momentos do dia para isto pode servir como uma boa alternativa para promover esta organização.

Outra reclamação constante no universo dos Product Owners é a existência excessiva de reuniões. Aqui a priorização também é fundamental: “Preciso mesmo estar nesta reunião ou minha presença é dispensável e posso ser informado sobre os acordos posteriormente?”, “Há alguém do time que possa me representar?”. Muitas vezes o P.O. precisará dizer não ou delegar. Ele precisa escolher em quais momentos sua presença de fato é imprescindível.

Outro ponto bem complicado no Brasil é que as reuniões tendem a ser dispersivas, não possuem objetivos claros, e muitas vezes duram mais tempo do que o necessário. O profissional não deve ter medo de cobrar dos participantes respeito ao tempo e à agenda da reunião. Os 30 minutos perdidos esperando outros participantes atrasados, ou investidos em assuntos não relativos ao tema proposto, são os mesmos 30 minutos que vão faltar no final do dia para resolver uma questão de valor. É importante, ainda, que todos na sala saibam antes de iniciar qualquer discussão qual o objetivo do encontro e o output esperado. Precisa estar claro onde se quer chegar, quais respostas se quer obter ou em quais pontos o time presente deve consentir quando o tempo chegar ao seu fim.

Um aspecto crucial e importantíssimo para que o Product Owner possa ser bem-sucedido é o entendimento que este não está jogando sozinho e não é um exército de um homem só. Embora o Product Owner tenha que liderar e seja responsável pelo sucesso do produto em diversos aspectos, isto não significa que ele, pessoalmente, tenha que efetuar o trabalho de todas áreas e estar envolvido em 100% do andamento. O papel do P.O. é o de um facilitador, um negociador, um influenciador. Ele precisa abrir a discussão com o marketing a respeito da divulgação do seu produto e garantir que está na pauta deste outro time. Precisa engajar o time de desenvolvimento e transmitir claramente a missão do produto e de onde se quer chegar. Deve trabalhar em conjunto com as pessoas da área de indicadores e métricas. Mas, a partir daí ele deve deixar que cada um possa colaborar, produzir, construir, enfim, fazer o seu trabalho. Um produto evoluiu através da realização de esforços conjuntos e a pior coisa que um Product Owner pode fazer para o seu produto, para seus colegas e para si mesmo, é adotar uma postura altamente centralizadora. A melhor atitude é a de confiança nas pessoas. Tudo se resume em engajar, não em coordenar.

Troque experiências

Da mesma forma que é interessante que o Product Owner busque mentores e profissionais com mais experiência para se espelhar, é uma boa ideia retribuir este conhecimento adquirido compartilhando suas próprias experiências com outros. Com profissionais dispostos a compartilhar, ensinar, dividir e mentorar, toda a comunidade de gestores de produto cresce e se aprimora. Este tipo de atitude é amplamente saudável e provavelmente desejável em qualquer time ou empresa. Hoje mentorado, amanhã mentor.

Cabe ao profissional buscar meios de engajar-se, ainda, com a comunidade que está inserido através de eventos, fóruns, institutos e afins. A troca de informação, experiência e discussões não somente sobre o papel do Product Owner, mas especialmente sobre a gestão de produto em si só faz o mercado tornar-se cada vez mais qualificado.

Muitos iniciantes na área pensam que não possuem nada de útil a ser dividido, posto que seu tempo de experiência ainda é curto. Isto é um erro. Todos os profissionais atuantes, independentemente do nível de senioridade, possuem boas histórias para contar. Cases de erros e de acertos, de dificuldades ou de alternativas criadas para resolver velhos problemas. Partindo do princípio de que ninguém é o dono da verdade absoluta, o Product Owner iniciante tem muito a colaborar com a comunidade contando sobre seu próprio processo de formação, as pedras que encontrou pelo caminho e como conseguiu transpor estes obstáculos. Certamente outros profissionais em desenvolvimento conseguirão enxergar a si mesmos nestes relatos e aprender de forma mais rápida a partir da experiência compartilhada.

Muitas empresas estimulam jovens profissionais a criarem seus blogs, submeterem propostas de palestras em eventos da área ou participarem ativamente de discussões como fishbowls, por exemplo. No mínimo, este Product Owner estará exercitando suas habilidades de comunicação, além de dar sua contribuição pessoal para o desenvolvimento da área de gestão de produto como um todo.

A jornada de cada um é individual

Cabe a cada um entender o que funciona e o que não funciona em seu contexto ou empresa, descobrir seu próprio estilo de atuação e começar a pensar em seus próprios conselhos para outros colegas. Não existe, mesmo, receita de bolo. Não existe curso, manual, ou passo a passo que seja suficiente para criar um bom P.O. Apenas a prática e a atitude correta é que trazem a experiência. Aqueles que desejam ser grandes profissionais devem sair da zona de conforto, se auto provocar constantemente e buscar a melhoria contínua das suas habilidades e conhecimentos. Devem estar atentos, o tempo todo, sobre o que há de novo no mercado. E até mesmo – por que não? – inventar suas próprias técnicas.

Ao invés de assumir o papel de um expectador passivo da própria carreira, aquele que quer se tornar um grande Product Owner deve tomar as rédeas do seu próprio desenvolvimento pessoal e profissional. Quando este sente que já não está mais aprendendo, é hora de mudar. Mudar sua atuação, mudar de área ou até mesmo de empresa. É o desafio que gera os grandes profissionais e este, portanto, deve ser constante.


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