A pirataria acompanhou o mercado de software desde o seu início. Ao longo do tempo os fornecedores desenvolveram formas de combater ou pelo menos conviver com o problema. Uma das formas que eles criaram para defender sua rentabilidade foi cobrar mais dos que pagam para compensar a perda de faturamento causada pelas cópias ilegais, uma medida sem dúvida injusta. Por exemplo, é comum as grandes empresas comprarem software e as pessoas físicas piratearem; as empresas acabam pagando mais para compensar o uso gratuito por parte dos indivíduos.
Outro problema é que muitos softwares que poderiam ser criados não o são, exatamente porque eles seriam tão pirateados que seus potenciais autores concluem que não valeria a pena desenvolvê-los. Este problema é mais acentuado em mercados nos quais as pessoas físicas seriam os principais consumidores potenciais, pois não haveria o subsídio das grandes empresas.
Há também quem alegue que “os softwares são pirateados porque são caros” e como eles são vendidos por preços altos para compensar, isso cria um círculo vicioso de injustiça, ilegalidade e oportunidades perdidas.
Será que existe alguma maneira de quebrar este ciclo, permitindo que os softwares sejam baratos ao mesmo tempo em que os fornecedores sejam adequadamente remunerados?
Me parece que a Apple conseguiu resolver o problema através do “ecossistema” criado em torno do iPhone/iPad e a loja de aplicativos. Um dos principais ingredientes é um sistema operacional razoavelmente “fechado”, onde o usuário não tem total controle sobre o que ocorre nele.
Possuir um dispositivo no qual você não tem total controle me parece a princípio uma ideia repulsiva. Se ele é meu, eu tenho que poder fazer o que eu quiser, não? No entanto, a vida não é feita de absolutos, precisamos pesar as vantagens e desvantagens. Se a maneira “fechada” permite que eu tenha acesso a mais softwares do que eu teria anteriormente pagando pouco e sem estar na ilegalidade, esta pode ser uma troca razoável.
Este modelo de negócio, até certo ponto controverso, foi lançado em meio às ondas de enorme sucesso comercial da Apple no iPhone e no iPad...e foi aceito sem maiores questionamentos. Até houve alguns problemas, como software impedidos de rodar na loja da Apple por razões arbitrárias ou mal explicadas, assim como disputas comercias com fornecedores de conteúdo que se recusaram a pagar comissão para conteúdos - não aplicativos - distribuídos diretamente para aplicativos baixados da loja. Entretanto, ter um dispositivo fechado, onde os aplicativos são mais controlados tem uma vantagem adicional: permite que eu tenha um dispositivo mais estável, com menos problemas de interações entre diferentes aplicativos, vírus e malware em geral.
Atualmente, o principal concorrente da Apple no mercado de Smartphones são os dispositivos baseados no Android, um sistema operacional bastante aberto. Comparando com o iPhone, podemos já observar que o mundo Android tem os usuais problemas de incompatibilidades de versões e instabilidades, além de recentemente ter sido invadido por uma torrente de virus e malware de todos os tipos.
A Microsoft tinha um modelo semelhante ao do Android na sua linha Windows Mobile. Esta linha foi recentemente substituída pelo Windows Phone 7, que tem um modelo fechado semelhante ao da Apple.
É com relutância então que sou obrigado a reconhecer que a maneira fechada talvez seja melhor para o mercado de consumidores finais, pessoas que não querem gastar tempo com suporte técnico para os seus aparelhos, que querem que eles simplesmente funcionem. No fundo, é o que a maioria das pessoas espera de eletrodomésticos, automóveis e outros produtos de consumo.
Como desenvolvedor de software, tenho ainda que agradecer às novas oportunidades de negócio abertas pelas lojas de aplicativos.
Mauro Sant’Anna (mas_mauro@hotmail.com) nunca gostou de dispositivos fechados.