Fórum O Pato #129588
18/09/2005
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O Pato
ela era a rainha balzaquiana da teleculinária. ele apresentava o telejornal. ela conquistava as audiências da manhÃ& com bolos fabulosos, pastéis e rissóis. ele ganhava a vida a falar com ar carrancudo sobre guerras, epidemias e defuntos. ela acordava cedo, depois dos desenhos animados. ele deitava-se tarde, nunca antes do fecho de emissÃ&o. ela era divorciada de Asdrúbal, o palhaÃ?o loiro e mudo, aquele que apresentava números sem graÃ?a no telecirco de domingo. ele tinha várias namoradas, incluindo a enfermeira chefe da série sobre médicos e a rapariga bonita da meteorologia.
os dois encontraram se por acaso num talk show noturno que debatia um tema qualquer obscuro. ela sentia-se só. ele, em plena meia idade, demasiado acompanhado. depois do programa foram tomar uns copos. ela falou do dia em que em frente à s câmaras matou um pato. ele de como era amigo de secretários de estado. ela reparou que ele estava magro. ele de como ela ficava bem com aquele penteado. o empregado avisou que o bar ia fechar. ele fez questÃ&o de pagar a conta. ela convidou-o para jantar.
- olá, cheguei cedo?
- nÃ&o. Entre e fique à vontade.
- e a sua amiga da SIC Mulher nÃ&o veio?
- desistiu. algum problema do jantar nÃ&o ser a três?
- prefiro assim. detesto multidões.
- o jantar está quase pronto.
- hum, que cheiro bom.. O que é?
- pato assado.
- estava a falar do seu perfume.
- ah... Chanel nº 5.
- mal posso esperar para prová-lo.
- calma. nÃ&o vá rápido demais. há muito que nÃ&o recebo um homem em casa.
- estava a falar do pato.
ele comeu como um rei e repetiu três vezes. ela bebeu demasiado vinho. ele revelou que estava cansado de apresentar o telejornal, que queria ser valorizado como um bom jornalista e nÃ&o apenas mais um rosto bonito. ela nÃ&o ouviu nada. estava concentrada naquela covinha charmosa que ele tinha no queixo. foram para a cama.
- foi bom para ti?
- sei lá, bebi demais. nÃ&o penses que sou dessas.
- nÃ&o penso nada. a noite foi óptima. há muito que nÃ&o comia um pato como esse.
- a receita é da minha avó. o Asdrúbal nÃ&o gostava
- ele é um palha�o.
- nÃ&o fales mal do Asdrúbal que eu nÃ&o gosto.
- estava apenas a citar a profissÃ&o dele.
- o Asdrúbal quando comia em casa nunca repetia.
- e além do pato do que mais ele nÃ&o gostava?
- de mim.
- hum... posso repetir?
no dia seguinte ela estava de cabeÃ?a tÃ&o perdida que durante o seu programa ensinou a colocar pimenta numa receita de pudim flan. ele estava tÃ&o feliz que teve um acesso de risos enquanto lia a notÃcia da demissÃ&o de um ministro. ele passou a jantar na casa dela todas as noites. os sinais da paixÃ&o eram visÃveis em ambos. ele cada vez mais gordo a apresentar o telejornal. ela com umas olheiras enormes em seu programa matinal. ele terminou com as outras namoradas. a rapariga bonita da meteorologia tornou-se numa triste. só falava de tempestades e de nuvens sombrias a sobrevoar o litoral. e a enfermeira chefe passou a deixar morrer um paciente atrás de outro.
um dia, ela foi surpreendida pela visita do Asdrúbal, o palhaÃ?o loiro e mudo. Asdrúbal, apesar do sorriso vermelho pintado na cara, chorava. dos seus olhos saÃam esguichos de lágrimas. andava pelo apartamento a arrastar os seus longos sapatos, a derrubar coisas, a levar tombos involuntários. e a dizer, por gestos descoordenados, que estava arrependido e que queria voltar. ela, sensibilizada, perguntou se ele nÃ&o queria ficar para jantar. fez um teste, assou um pato. asdrúbal comeu com prazer. repetiu seis vezes. e mais tarde na cama, idem.
- temos que terminar.
- o quê?!
- o Asdrúbal. ele pediu para voltar.
- aquele palhaÃ?o?
- a profissÃ&o dele nÃ&o importa.
- mas quem falou de profissÃ&o? ele é um palhaÃ?o mesmo.
- nÃ&o fales assim. estou confusa. acho que ele merece uma segunda oportunidade.
- nÃ&o posso crer. mas o que ele faz por ti que eu nÃ&o possa fazer?
- ele faz-me rir.
e foi assim que tudo terminou. sem os pratos saborosos que ela lhe fazia, ele voltou a emagrecer. cadavérico e feio, ganhou respeito e um prémio como jornalista do ano. casou-se com a rapariga da meteorologia, que desde entÃ&o passou a só prever um bom tempo. ela abandonou o programa de culinária e passou a cozinhar apenas em casa. Asdrúbal, o palhaÃ?o loiro e mudo, pintou o cabelo de ruivo e passou a fazer números com imensa piada. a enfermeira chefe mudou se para uma telenovela venezuelana onde agora faz de freira. e o pato?
está óptimo, obrigado.
ela era a rainha balzaquiana da teleculinária. ele apresentava o telejornal. ela conquistava as audiências da manhÃ& com bolos fabulosos, pastéis e rissóis. ele ganhava a vida a falar com ar carrancudo sobre guerras, epidemias e defuntos. ela acordava cedo, depois dos desenhos animados. ele deitava-se tarde, nunca antes do fecho de emissÃ&o. ela era divorciada de Asdrúbal, o palhaÃ?o loiro e mudo, aquele que apresentava números sem graÃ?a no telecirco de domingo. ele tinha várias namoradas, incluindo a enfermeira chefe da série sobre médicos e a rapariga bonita da meteorologia.
os dois encontraram se por acaso num talk show noturno que debatia um tema qualquer obscuro. ela sentia-se só. ele, em plena meia idade, demasiado acompanhado. depois do programa foram tomar uns copos. ela falou do dia em que em frente à s câmaras matou um pato. ele de como era amigo de secretários de estado. ela reparou que ele estava magro. ele de como ela ficava bem com aquele penteado. o empregado avisou que o bar ia fechar. ele fez questÃ&o de pagar a conta. ela convidou-o para jantar.
- olá, cheguei cedo?
- nÃ&o. Entre e fique à vontade.
- e a sua amiga da SIC Mulher nÃ&o veio?
- desistiu. algum problema do jantar nÃ&o ser a três?
- prefiro assim. detesto multidões.
- o jantar está quase pronto.
- hum, que cheiro bom.. O que é?
- pato assado.
- estava a falar do seu perfume.
- ah... Chanel nº 5.
- mal posso esperar para prová-lo.
- calma. nÃ&o vá rápido demais. há muito que nÃ&o recebo um homem em casa.
- estava a falar do pato.
ele comeu como um rei e repetiu três vezes. ela bebeu demasiado vinho. ele revelou que estava cansado de apresentar o telejornal, que queria ser valorizado como um bom jornalista e nÃ&o apenas mais um rosto bonito. ela nÃ&o ouviu nada. estava concentrada naquela covinha charmosa que ele tinha no queixo. foram para a cama.
- foi bom para ti?
- sei lá, bebi demais. nÃ&o penses que sou dessas.
- nÃ&o penso nada. a noite foi óptima. há muito que nÃ&o comia um pato como esse.
- a receita é da minha avó. o Asdrúbal nÃ&o gostava
- ele é um palha�o.
- nÃ&o fales mal do Asdrúbal que eu nÃ&o gosto.
- estava apenas a citar a profissÃ&o dele.
- o Asdrúbal quando comia em casa nunca repetia.
- e além do pato do que mais ele nÃ&o gostava?
- de mim.
- hum... posso repetir?
no dia seguinte ela estava de cabeÃ?a tÃ&o perdida que durante o seu programa ensinou a colocar pimenta numa receita de pudim flan. ele estava tÃ&o feliz que teve um acesso de risos enquanto lia a notÃcia da demissÃ&o de um ministro. ele passou a jantar na casa dela todas as noites. os sinais da paixÃ&o eram visÃveis em ambos. ele cada vez mais gordo a apresentar o telejornal. ela com umas olheiras enormes em seu programa matinal. ele terminou com as outras namoradas. a rapariga bonita da meteorologia tornou-se numa triste. só falava de tempestades e de nuvens sombrias a sobrevoar o litoral. e a enfermeira chefe passou a deixar morrer um paciente atrás de outro.
um dia, ela foi surpreendida pela visita do Asdrúbal, o palhaÃ?o loiro e mudo. Asdrúbal, apesar do sorriso vermelho pintado na cara, chorava. dos seus olhos saÃam esguichos de lágrimas. andava pelo apartamento a arrastar os seus longos sapatos, a derrubar coisas, a levar tombos involuntários. e a dizer, por gestos descoordenados, que estava arrependido e que queria voltar. ela, sensibilizada, perguntou se ele nÃ&o queria ficar para jantar. fez um teste, assou um pato. asdrúbal comeu com prazer. repetiu seis vezes. e mais tarde na cama, idem.
- temos que terminar.
- o quê?!
- o Asdrúbal. ele pediu para voltar.
- aquele palhaÃ?o?
- a profissÃ&o dele nÃ&o importa.
- mas quem falou de profissÃ&o? ele é um palhaÃ?o mesmo.
- nÃ&o fales assim. estou confusa. acho que ele merece uma segunda oportunidade.
- nÃ&o posso crer. mas o que ele faz por ti que eu nÃ&o possa fazer?
- ele faz-me rir.
e foi assim que tudo terminou. sem os pratos saborosos que ela lhe fazia, ele voltou a emagrecer. cadavérico e feio, ganhou respeito e um prémio como jornalista do ano. casou-se com a rapariga da meteorologia, que desde entÃ&o passou a só prever um bom tempo. ela abandonou o programa de culinária e passou a cozinhar apenas em casa. Asdrúbal, o palhaÃ?o loiro e mudo, pintou o cabelo de ruivo e passou a fazer números com imensa piada. a enfermeira chefe mudou se para uma telenovela venezuelana onde agora faz de freira. e o pato?
está óptimo, obrigado.
Joao_schroeder
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