Há quem diga que a eliminação da Seleção Brasileira contra a Holanda na Copa do Mundo de 2010 encerrou de vez o período negro do nosso futebol conhecido como “Era Dunga”. Será? Talvez nos gramados sim, mas fora deles, a história pode ser bem diferente. Acredite se quiser, mas algumas organizações tem adotado um estilo de gestão bem parecido com o estilo implementado pelo último técnico da seleção brasileira. O que há de comum entre essas organizações e a seleção do Dunga?

Primeiro, uma grande falta de criatividade motivada pelo medo de arriscar. A nossa seleção havia adotado uma estratégia pra lá de manjada: esperar o adversário se aproximar e investir no contra-ataque. Mas num mundo competitivo como o atual, a melhor defesa sem dúvida é o ataque. Não dá mais pra esperar o mercado ditar as normas para depois pensar em reagir. É preciso atacar, é preciso tomar a iniciativa e criar novos nichos e conceitos de mercado como alternativas que garantirão a sobrevivência e a permanência da organização nesse contexto cada vez mais competitivo. Em outras palavras, é preciso atacar o time adversário do começo ao fim do jogo. Afinal, “quem não faz, toma.”

Segundo, um estilo de jogar que não condiz com a verdadeira essência do time. Todos sabemos que a seleção brasileira é por natureza uma seleção alegre, vibrante, sorridente. Afinal, o brasileiro tem esse perfil. Mas o que vimos nesta Copa foi algo bem diferente. Dunga entendeu que para que o time fosse vencedor, a adoção de uma “carranca” seria necessária. Carranca, para quem não sabe, é uma careta inspirada em esculturas nada simpáticas e que, segundo os antigos, espantavam os espíritos maus. Dunga imaginou que se os jogadores se apresentassem sempre com uma “carranca” de mau humor e irritação, os espíritos maus dos críticos e da imprensa os deixariam em paz. Da mesma forma, muitos líderes de organizações têm uma visão equivocada acerca da importância do bom humor no ambiente de trabalho. Alguns imaginam que um contexto empresarial mais leve e mais “feliz” pode gerar colaboradores sem comprometimento, piadistas e inconvenientes. Assim, acabam imprimindo em seus funcionários uma carranca corporativa, amparados na desculpa de que seriedade e responsabilidade não são conciliáveis com a leveza do bom humor. Ocorre que o brasileiro por natureza é leve, é alegre, é feliz, e são esses atributos que o tornam criativo, versátil e facilmente adaptável às mudanças do mercado.

Terceiro, a falta de percepção de que é possível conciliar leveza com comprometimento. Na seleção de Dunga não havia lugar para sorrisos e nem coreografias. Na verdade, a impressão que se tinha é que havia um concurso pra ver quem conseguia manter a carranca mais assustadora por mais tempo. Com isso não quero dizer que dar cambalhotas e sorrir a todo instante seja condição básica para qualquer time por as mãos na taça. Mas vejamos o exemplo do time dos meninos da Vila, o Santos Futebol Clube. Neimar, Ganso, Robinho e companhia são uma explosão de dribles, alegria, bom humor... e produtividade. O time é campeão, e não se pode negar isso. Eles sorriem, dançam, mas também treinam, marcam gols e vencem tudo. O Santos é uma prova concreta de que é possível sim aliar alegria e leveza à produtividade e responsabilidade. Está mais do que provado que um ambiente de trabalho onde o bom humor prevalece é propício a uma maior satisfação e produtividade, pois através do bom humor os colaboradores passam a ter uma percepção melhor dos conflitos cotidianos e encontram maneiras mais eficientes e objetivas de lidarem com eles. Corporações que encaram a leveza e o bom humor como aspectos nocivos ao bom desempenho da organização acabam criando um ambiente que inibe a criatividade e que reduz os índices de produtividade.

Talvez o maior erro que Dunga cometeu foi ter treinado a seleção brasileira como se ela fosse a seleção da Alemanha. Simplesmente não dá. Não dá para administrar uma corporação de brasileiros através de um estilo de gestão que inibe a alegria e a criatividade. A espontaneidade é a maior virtude do nosso povo, da nossa cultura. Cabe aos gestores transformarem toda essa energia em dividendos e em produção com equilíbrio e bom senso. Caso contrário, não passaremos das quartas de final.