Tradicionalmente o desenvolvimento e instalação de software em computadores são “abertos”. Ou seja, se eu sou administrador do computador, eu posso instalar qualquer programa que eu deseje. Além disso, as interfaces com o sistema operacional são bem documentadas e qualquer um pode desenvolver software para ele, usando ferramentas baratas ou mesmo gratuitas. Isso vale tanto para sistemas operacionais Open Source como Linux ou BSD Unix como para sistemas proprietários como o Windows.
Desde o início dos microcomputadores, o sucesso de um sistema operacional estava intimamente ligado à disponibilidade de software aplicativo para ele. Alguns casos são notórios, como o da planilha de cálculo VisiCalc que viabilizou o Apple II ou o do PageMaker que deu um grande empurrão ao Mac da Apple em sua infância, criando o ramo de “desktop publishing”.
Por esta razão, os fornecedores de sistema operacional sempre tiveram grande interesse em angariar desenvolvedores e considerava-se que uma plataforma aberta, bem documentada e que não impusesse restrições aos desenvolvedores era um requisito necessário ao sucesso do sistema operacional ou plataforma.
Então, em janeiro de 2007 aconteceu uma coisa muito estranha: A Apple lançou o seu iPhone sem nenhum suporte público ao desenvolvimento de aplicativos. A única maneira de uma companhia que não a Apple de criar aplicativos era através da Web; não era possível criar ou instalar aplicativos no aparelho. Apesar disso, o iPhone foi um enorme sucesso.
Em meados de 2008, A Apple cedeu às pressões e criou um “SDK” (kit de desenvolvimento de software) para iPhone. Mas esse kit veio com algumas novidades curiosas: primeiro você precisava pedir licença à Apple para desenvolver software. E o pior: a instalação do software nos iPhones – qualquer iPhone - precisava passar pela “loja” da Apple, sujeita e um critério de aprovação, que podia ser negado, mais 30% de comissão. Várias interfaces de programação eram restritas e não poderiam ser utilizadas. Ou seja: mesmo você sendo “administrador” (ou dono) do iPhone, você tinha que se sujeitar à um critério “paternalista” da Apple. Você podia ser dono do iPhone, mas quem dizia o que podia rodar nele era a Apple.
Isso aparentemente violava uma série de dispositivos “anti-truste” em vários países, que impedem “vendas casadas”. E era uma venda casada tripla: do telefone, das ferramentas de desenvolvimento e dos aplicativos via a loja da Apple. A loja ainda violava o aparente direito do dono do telefone fazer o que quisesse com ele. Apesar disso, a loja da Apple foi um sucesso; ninguém foi preso ou mesmo investigado, embora não houvesse falta de atritos. Uma recente e notória foi a imposição da Apple da cobrança de 30% por conteúdo que fosse distribuído para aplicativos, mesmo que eles não passassem pela loja. Isso causou um conflito com uma renomada editora internacional, publicadora do jornal Financial Times, que terminou com a remoção do aplicativo da loja.
O Android, sistema operacional da Google voltado a dispositivos portáteis ainda segue a linha “aberta” tradicional, com uma infinidade de fabricantes de hardware e software, sem limitações.
A família Windows Mobile seguia a linha tradicional “aberta” estabelecida com sucesso pelos sistemas operacionais desktop da própria Microsoft. Em 2010 a Microsoft a substituiu pela linha “Windows Phone 7”, com uma arquitetura fechada semelhante à da Apple.
É importante que seja dito que além de emular o sucesso fenomenal da maneira de fazer negócios da Apple, existem algumas justificativas técnicas concretas para uma arquitetura “fechada”: melhor controle do hardware e qualidade do aparelho, evitando soluções baratas e ruins; viabilidade da loja de aplicativos com baixo índice de pirataria e preços baixos por causa disso; menor chance de propagação de “malware”; evitar aplicativos ruins que fação coisas indesejáveis como por exemplo, rodar em background e gastar muita bateria sem que o usuário possa atribuir o problema ao aplicativo, culpando a plataforma.
De qualquer forma, a arquitetura fechada sempre me pareceu algo meio estranho. Mas pode ser que essa seja a nova maneira de fazer negócio daqui para frente, tanto em telefones como em outras plataformas. Saberemos disso nos próximos anos.
Mauro Sant’Anna (mas_mauro@hotmail.com) sempre gostou de arquiteturas abertas e acredita que o sucesso dos micros se deveu a elas.