A concorrência dos sistemas operacionais nos servidores está estável, com o Windows Server e o Linux compartilhando o mercado. Nos desktops, o Windows reina sozinho, sua última ameaça séria foi o OS/2 da IBM no início dos anos 90. Apesar disso, a Microsoft é considerada por muitos uma empresa irremediavelmente ultrapassada.

A razão disso evidentemente é a chamada “consumerização” da informática, capitaneada por dispositivos portáteis como “SmartPhones” e “Tablets”, hoje sem dúvida os queridinhos do mercado. Eles chamam mais a atenção não só na literatura especializada, como também como “sonho de consumo” de todos. Neste mercado a liderança é dos sistemas operacionais “iOS” da Apple e Android da Google. A participação da Microsoft é mínima e ainda assim dividida entre o Windows Phone 7 e versões “tablet” do Windows 7. Em todos os lugares vemos anúncios de aplicativos para iOS e Android, é raro ver alguma coisa para plataforma Microsoft. Sob este cenário é fácil dizer que “a Microsoft já era”.

Antes de descartar a Microsoft, no entanto, é bom lembrar-se do seguinte:

1. O Windows ainda lidera em número de cópias utilizadas sobre o iOS e o Android somados;

2. O Windows 7 é um excelente sistema operacional sob qualquer ótica;

3. As ferramentas de desenvolvimento da Microsoft são muito melhores que as dos concorrentes;

4. A Microsoft tem muito dinheiro para investir.

E se a Microsoft pudesse alinhar seus pontos fortes e investir em seus pontos fracos de forma a ter uma boa plataforma para dispositivos portáteis? Pois é exatamente o que ela está fazendo, sob a firme liderança de Steven Sinofsky, o czar do Windows.

Em primeiro lugar, a Microsoft pegou a excelente base do Windows 7 e a melhorou: o Windows 8 gasta menos memória, menos CPU e suporta mais tipos de dispositivos de hardware que o anterior. Ele também foi portado para a plataforma ARM, a CPU padrão em dispositivos não-PC e utilizada simplesmente por *todos* os “SmartPhones” e “Tablets” do mercado.

Em segundo lugar ela desenvolveu uma interface com usuário chamada “Metro”, utilizada hoje no Windows Phone 7 e que ganhou vários prêmios de “design” e usabilidade; é justo dizer que nenhuma outra interface foi tão bem pensada como a Metro.

Além da interface com usuário, os dispositivos de consumo têm duas grandes diferenças em relação a um computador desktop: 1) eles rodam com bateria e, portanto o baixo consumo de energia é extremamente importante e 2) a expectativa de estabilidade é muito maior; é inadmissível que eles “travem” durante o uso normal, mesmo que por alguns segundos. Para suportar esses novos paradigmas a Microsoft adaptou vários componente de software que ela já tinha de forma a criar uma nova API chamada “WinRT”. A WinRT não traz nada de completamente novo, ela simplesmente reempacota vários componentes que já existiam de forma a suportar melhor uma plataforma portátil. Para ajudar, temos uma nova versão do Visual Studio especialmente criada para o desenvolvimento de software sob e para Windows 8, o Visual Studio 11. Isso significa que os desenvolvedores da plataforma Windows atuais terão facilidade em desenvolver para a nova plataforma.

A Microsoft criou também uma “loja” de aplicativos, para permitir a distribuição de software em modelo semelhante à Apple, mas com algumas vantagens: custos menores (20% em vez de 30%), sem restrições para provedores de conteúdo como revistas e possibilidade de distribuições fechadas (dentro de uma empresa, por exemplo).

É importante lembrar que a briga por dispositivos portáteis está longe de definida: a maioria das pessoas que terá um “SmartPhone” ou “Tablet” em cinco anos não possui um hoje – isso em um mercado em que o ciclo de trocas desses aparelhos é de uns dois anos e que as pessoas podem muito bem trocar de marca quando da reposição, como fazem com celular. A Microsoft tem ao seu lado a inércia do Windows, pois você poderá ter um dispositivo de “dupla personalidade” que funciona como um “Tablet”, mas também roda qualquer software feito para Windows.

A Microsoft já triunfou repetidamente em mercados nos quais entrou “atrasada” como o servidores (dominado por variantes de Unix e mainframes), banco de dados (contra Oracle, DB/2 e Sybase) planilhas eletrônicas (contra Lotus 1-2-3 e Borland Quattro), editores de textos (WordStar, Ami Pro e WordPerfect) e o próprio Windows em um mercado então dominado pela Apple. É muito cedo para descarta-la.

Mauro Sant’Annaacreditou no Windows 8 desde sua divulgação pública no evento Build.

E se a Microsoft pudesse alinhar seus pontos fortes e investir em seus pontos fracos?