Desde que a Web popularizou-se lá pela segunda metade da década de noventa, vários profetas anunciaram que ela seria a única plataforma do futuro e que tudo mais era irrelevante. Este “tudo mais” incluía os aplicativos que rodavam fora de servidores Web, como por exemplo, seu editor de texto ou software de contabilidade. Este tipo de aplicativo também é conhecido como “cliente rico”, para enfatizar a melhor interface com usuário em comparação à Web.

Eu sempre fui cético quanto a esta profecia, apesar dela ter sido “anunciada” várias vezes:

• 1997: anúncio inicial da profecia, que levou várias empresas a anunciar que só fariam coisas para a Web. Por exemplo, a Novell, já perdendo mercado com seu pacote concorrente do Microsoft Office, anunciou que os portaria integralmente para a Web. Não só isso não ocorreu, como seus principais componentes, WordPerfect e Quatro Pro, sumiram.

• 2004: Uso de JavaScript em conjunto com WebServices, uma tecnologia desenvolvida pela Microsoft em 1999 com a finalidade de criar uma boa interface para o Outlook Web Access. Ela foi anunciada como novidade pela Google sob o nome “AJAX”, nome esse posteriormente sequestrado por todo o mercado, inclusive pela Microsoft. Isso deu um novo gás à Web, pois todo mundo já estava meio cansado da interface web tradicional.

• 2005 até agora: Tim O'Reilly em uma série de conferências popularizou o termo “Web 2.0”, que até hoje ninguém sabe muito bem o que significa. De qualquer forma, a definição mais comum inclui algum tipo de interface mais rica, baseada fortemente em AJAX.

Apesar de tudo, o cliente rico recusou-se a morrer! O mais recente suporte ao cliente rico veio de um local bastante inesperado, a Apple Computer.

Em janeiro de 2007, a Apple anunciou com bandas e fanfarras o seu telefone, o iPhone. Embora ele tivesse uma interface rica e baseada em toque, a Apple não criou originalmente um “kit de desenvolvimento” para aplicativos locais. É claro, quem iria desejar desenvolver para o cliente ao invés da Web? Loucura. Você deveria então desenvolver aplicativos para o navegador, possivelmente formatados para a tela menor.

A reação à falta de um “kit de desenvolvimento” que realmente permitisse software rodando localmente, desconectado e usando os recursos locais, como a interface sensível ao toque foi nada menos que um motim por parte dos Applemaníacos. Em outubro de 2007 a Apple finalmente cedeu à pressão e anunciou que publicaria um kit de desenvolvimento, o que efetivamente ocorreu em março de 2008. Desde então foram desenvolvidos milhares e milhares de aplicativos, desde simuladores de flatulência a jogos completos como o “The Sims”, passando por aplicativos mais sérios como “home broker” e muitos outros. Ajudou também o fato dos aplicativos pegarem carona no iTunes, loja virtual originalmente desenvolvida para vender música, mas adaptada para vender estes pequenos aplicativos.

O curioso é que o kit de desenvolvimento nem é tão bom assim para os padrões atuais. Ele usa uma linguagem derivada de C e é mais parecido com tecnologias do início da década de noventa como C++/MFC do que com coisas mais modernas como .NET ou Java. No entanto, a qualidade do cliente rico do iPhone compensou todas as desvantagens e hoje o iPhone é o cliente rico do momento.

A Microsoft agora investe bastante em interfaces baseadas no toque para PC – mais ou menos como as do iPhone - principalmente sob Windows 7 e usando WPF/Silverlight. Será que teremos uma revolução semelhante nos PCs? Eu espero que sim.